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8 de fevereiro de 2022

Mais inclusão e menos intolerância no mercado de trabalho

Empresas apostam em projetos de diversidade para oferecer oportunidades às pessoas trans e travestis

Por Amanda Nonato

O último mês de janeiro foi marcado pela luta e reivindicação de direitos às pessoas transexuais e travestis. Apesar de a transfobia ser crime no Brasil desde 2019, o país é o que mais mata pessoas trans e travestis no mundo, pelo 13º ano consecutivo, segundo o relatório de 2021 da Transgender Europe (TGEU). Esse dado reforça a falta de impunidade à violência, falta de oportunidades e rejeição.


Uma saída para ir contra essas estatísticas é oferecer possibilidades de vida digna, trabalho e estudo, como o Programa Transforma TIM, que busca gerar qualificação e inclusão de pessoas trans no mercado de trabalho, com graduação gratuita à distância. A única exigência para participar do processo seletivo é ter completado o Ensino Médio. Nessa primeira edição, há vagas nas lojas de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, além de no call center, de forma remota.

A iniciativa da TIM tem parceria com a Transcendemos, uma consultoria dirigida por Gabriela Augusta, a primeira pessoa trans a estar na lista Under 30 da Forbes Brasil com os jovens mais promissores do Brasil, e a Ampli uma edtech de ensino digital da Kroton.


De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), 90% da população trans no Brasil tem a prostituição como fonte de renda, por serem alvo de discriminação na busca por trabalho.


“No ano passado, aderimos ao Fórum de Empresas e Direitos LGBTI e estamos focados na inclusão e na ampliação da representatividade de pessoas LGBTI no mercado de trabalho. O programa Transforma reflete nossos valores – coragem, respeito e liberdade – que também estão presentes no cotidiano das pessoas trans”, comenta o head de Desenvolvimento, Educação e Inclusão no RH da TIM, Giacomo Strazza.


Ainda segundo os dados da ANTRA, uma parcela das pessoas trans abandonam os estudos aos 13 anos, e apenas 0,02% das pessoas trans tem acesso às universidades no Brasil, o que faz com que o projeto seja um diferencial.
O vice-presidente de Crescimento da Kroton, Leonardo Queiroz, afirmou que essa parceria com a TIM também está em alinhamento com o propósito ESG da empresa, que visa o impacto por meio da educação. “Estamos muito felizes em poder, junto à TIM, ajudar a mudar a realidade das pessoas trans ao oferecer educação de qualidade, de forma acessível e flexível, contribuindo para o desenvolvimento profissional e inserção no mercado de trabalho.”


Em 2019, a maior rede de saúde integrada do país, Dasa, criou uma área dedicada à diversidade e inclusão, debatendo as frentes de Equidade de Gênero, Igualdade Racial, LGBTQIA+, Pessoas com Deficiência e Diversidade Geracional.
O resultado desse trabalho rendeu, além de reconhecimentos e prêmios, a contratação de 40 colaboradores trans, em 2021, uma quantidade acima da primeira meta estabelecida pela companhia. “Sabemos que ainda temos diversos desafios e pontos a melhorar. Entre os projetos do ano, estão a melhoria de processos, sistemas e treinamentos para garantia do respeito às identidades de gênero e ao nome social”, diz Fabio Rosé, diretor-geral de Pessoas e Cultura na empresa.

Sobre ter diversidade nas equipes, a diretora-fundadora da Transcendemos, Gabriela Augusto, afirma que é uma riqueza. “Devemos olhar para talentos trans como força, como potência. São profissionais que vão trazer novas visões de mundo e diferentes experiências de vida aos times da TIM. Precisamos arregaçar as mangas e assumir uma postura ativa na busca e no apoio ao desenvolvimento profissional dessas pessoas candidatas.”
Transempregos

A união entre Maite Schneider (Grupo Esperança), Laerte Coutinho (cartunista), Dra. Márcia Rocha (advogada travesti) e a psicanalista Dra. Letícia Lanz resultou, em 2013, a Transempregos, com a missão de reverter, junto às companhias, a discriminação e o preconceito, que causam dificuldades na busca por trabalho entre a população trans e travesti.
As empresas que buscam mudanças sociais criam propostas com o projeto para que mudanças reais aconteçam, desde informação à empregabilidade. No último ano, foi encontrada 794 vagas de emprego para as pessoas trans.


“Ano a ano, as contratações sempre crescem. Em 2020, foram 707 vagas preenchidas. Em 2021, subiu para 794. Mas o que aumenta mesmo é o número de vagas disponíveis: são mais de 4.600 – triplicou em 2021. As contratações não aumentaram na mesma proporção. Temos muita vaga não preenchida”, comentou Maite Schneider.

A atriz e ativista explica que as contratações ainda são baixas por conta da alta exigência de experiência das empresas, para pessoas que ainda estão começando no mercado de trabalho. Segundo ela, os ramos que mais contratam são o telemarketing, a tecnologia e o varejo.


Outro ponto levantado por Maite é o diversity wash, termo usado para empresas que usam dessas causas pelo marketing. Atualmente, isso não é um problema do ponto de vista dela.

“A empresa começa com um propósito errado, mas vive essa experiência e passa a acreditar na causa. A única preocupação é se o ambiente não é hostil ao profissional. Não posso esperar por um mundo perfeito para fazer o trabalho em que acredito. Enquanto isso, busco conscientizar a empresa. É um jogo de estratégia”, pontua.

Dia da visibilidade trans

A data 29 de janeiro de 2004 tornou-se um marco histórico no Brasil. O dia marca a ida de 27 transexuais e travestis ao Congresso Nacional, em Brasília, para reivindicar os seus direitos. A campanha “Travesti e Respeito” resultou em um compromisso firmado entre o Ministério da Saúde e a população LGBTQIAP+ no país e no registro do Dia da Visibilidade Trans.


A data enfatiza a importância da luta pela garantia de direitos básicos, como ter a sua identidade reconhecida e respeitada. No entanto, essas pessoas ainda sofrem violência no Brasil e no mundo. Segundo o relatório de 2021 da Transgender Europe (TGEU), 96% das pessoas assassinadas no mundo eram mulheres trans ou pessoas transfeminadas. Ainda de acordo com os dados, 58% dessas pessoas eram profissionais do sexo, com a idade média de 30 anos.