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19 de fevereiro de 2021

Empresas incentivam participação e desenvolvimento de mulheres na Ciência

Por Karen Garcia

Mesmo com mais tempo de estudo, as mulheres são minoria na Ciência. Essa participação vem aumentando lentamente, mas ainda é desigual. De acordo com relatório da Elsevier, entre 1996 e 2000, elas representavam apenas 38% da comunidade científica brasileira e, no período de 2001 a 2015, o índice alcançou 48%. A igualdade de gênero, que é um dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), também está no radar de empresas como a Shell, L’Oréal, White Martins e Instituto Serrapilheira, que apoiam e incentivam a participação de meninas e mulheres nas Ciências.  

Para impactar positivamente a formação e o acesso profissional de jovens estudantes – em especial nas áreas de Ciência, Tecnologia e do setor industrial –, a L’Oréal Brasil e a CCI França-Brasil divulgaram uma parceria na semana do Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado no dia 11 de fevereiro.  

O projeto-piloto ImpactMeninas França-Brasil é uma iniciativa da Câmara com apoio da Embaixada da França, do Lycée Molière e do Colégio Pedro II. Para Cristina Garcia, Diretora Científica da L’Oréal Brasil, o projeto une a convicção de que é necessário estimular meninas e mulheres a seguir a carreira científica com a vontade das pesquisadoras da empresa a contribuírem nesse sentido. 

“A iniciativa vem incentivar meninas em uma idade crucial na escolha de uma via profissional para o caminho nas áreas de Ciência, Tecnologia ou no setor Industrial, no qual ainda hoje as mulheres não estão em paridade.  Entre as atividades previstas no projeto, estão ateliês, mentorias e uma agenda de encontros virtuais”, conta a diretora em entrevista para o CCI França-Brasil.  

Além disso, desde 2006, L’Oréal Brasil promove o programa “Para Mulheres Na Ciência”, em parceria com a UNESCO Brasil e a Academia Brasileira de Ciências, que concede bolsas para pesquisa de cientistas mulheres. Ao longo de quinze anos, o prêmio já reconheceu mais de 100 cientistas promissoras, que receberam impulso extra para darem prosseguimento em seus estudos e incrementarem o desenvolvimento da Ciência no Brasil.  

Diversidade é menor na ciência e tecnologia

Segundo a Unesco, estima-se que apenas 30% dos cientistas do mundo sejam do gênero feminino. Apesar de os números de mulheres com mestrado e doutorado serem superiores ao dos homens, as mulheres representam apenas 33% do total de bolsistas de Produtividade em Pesquisa do CNPq. Nas áreas de Ciências Exatas, Engenharias e Computação, a desigualdade é maior. Os homens assinam 75% dos artigos nas áreas de Computação e de Matemática.  

Segundo Cristina Caldas, diretora do Instituto Serrapilheira, que atua com fomento à pesquisa e divulgação científica, esse resultado se explica devido a diversos e múltiplos obstáculos, em especial nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, conhecidas pela sigla STEM em inglês (Science, Technology, Engineering and Mathematics). 

“Estamos em um sistema que já começa muito desigual. Existe um momento para cientistas e pesquisadores que acabam tendo que escolher entre a profissão e a família. Em um programa internacional, por exemplo, é muito mais comum ver a esposa acompanhando a carreira profissional do marido do que o contrário. Nesse contexto, as mulheres acabam ficando menos competitivas. Sem contar o sexismo e racismo que existem na academia”, comenta Cristina Caldas.  

Para reduzir esse abismo, o Instituto Serrapilheira, dentro de seus programas de apoio à Ciência, estruturou um olhar atento para as questões de diversidade e gênero.  Desde sua criação, em 2017, o Instituto já apoiou 124 projetos de pesquisa e 46 projetos de divulgação científica. Em cinco anos, a organização destinou mais de R$41 milhões em apoio para pesquisadores e ampliação do conhecimento sobre a Ciência no país.  

Márcia Lima, professora de Sociologia da USP falou sobre formas de incluir perfis diversos na ciência em webinar do 5º Encontros Serrapilheira

“Nas nossas chamadas públicas, estendemos o prazo de conclusão de doutorado em até dois anos para as candidatas que são mães. Além disso, criamos mecanismo de apoio às grantees (pesquisadoras apoiadas) que engravidem ou tenham filhos durante a vigência do apoio do instituto”, aponta Caldas.  

A executiva destaca também sobre o mecanismo de bônus para ações de inclusão. Pesquisadores que têm o apoio do Serrapilheira renovado recebem até R$ 700 mil concedidos de forma incondicional, com bônus de R$ 300 mil, que devem ser destinados à integração e formação de pessoas de grupos sub-representados nas equipes de pesquisa. A adesão a esse mecanismo é voluntária, ou seja, os pesquisadores podem optar por receber ou não o valor destinado às práticas de estímulo à diversidade. 

“A maneira de engajar grupos sub-representados nas ciências é diferente. Estamos atentos e nos moldando para ampliar formas de apoiar essas pessoas”, afirma Caldas e acrescenta: “Observo que as cientistas mulheres têm a sensação de alívio e reconhecimento sobre o que elas passam com relação às iniciativas que desenvolvemos com foco na diversidade”, explica. 

Sensibilização nas escolas

A professora de biologia Márcia Brandão, do Ciep 449 Governador Leonel de Moura Brizola – Intercultural Brasil-França, contemplada pelo Prêmio Shell de Educação Científica, conta que as parcerias estimulam os estudantes e geram maior interesse de participação.  

“Quando eu levo um jaleco para os alunos, eles se sentem os próprios cientistas. Há uma participação muito grande dos alunos quando trabalhamos com projetos por conta da dimensão prática. O jovem se sente autônomo para desenvolver uma ideia e solucionar um problema. Eles mesmos propõem, nós discutimos, fazemos alguns acertos e eles executam. E, apesar das aulas ocorrerem de maneira remota no último ano, a participação continua muito intensa”, diz a professora.  

A educadora observa a diferença de aplicação do horizonte profissional em escolas que contam com apoio e incentivo às Ciências. Entre os projetos que já foram desenvolvidos com o apoio da iniciativa da Shell, constam atividades com foco na reciclagem do óleo de cozinha, armazenamento de chuva para irrigação de plantas e recuperação de energia através do potencial solar.  

“Há um desafio imenso na alfabetização e letramento em Ciências. Essas atividades proporcionam aos estudantes um gostinho pela ciência, o pensamento de desenvolverem problemas em suas comunidades. É muito importante as instituições – sejam públicas ou privadas – apoiarem iniciativas que proporcionem um contato com a aplicabilidade profissional para os estudantes”, conta.  

Além do recurso financeiro e visibilidade, Márcia conta que a dinâmica de trabalho também proporcionou melhorias para sua organização e metodologia de atuação, proporcionando, assim, mais ferramentas para a facilitação entre os alunos.  De acordo com a educadora, cerca de 70% dos participantes das atividades são do gênero feminino.

“Os benefícios não são só para os alunos. Eu também aprendo muito com o modelo e me sinto mais fortalecida e preparada para desenvolver essas atividades dentro das escolas. É uma troca muito rica e virtuosa”, afirma.   

Desenvolvimento profissional

A White Martins conta com diversas ações de incentivo à atuação feminina nas Ciências, como o apoio à eventos acadêmicos. Uma outra frente de ação da empresa se dá abrindo as portas da empresa que atua no setor de gases para incentivar o ingresso de mulheres na indústria.

Em fevereiro de 2020, por exemplo, a empresa realizou um ‘WM Experience’ com foco em mulheres que cursam graduações da área STEM. O objetivo foi mostrar como é o dia a dia da empresa e suas iniciativas para fomentar a igualdade de oportunidades e as possibilidades de desenvolvimento profissional.

E para garantir a ascensão e desenvolvimento de colaboradoras, desde 2019, a empresa implementa o “Programa de Desenvolvimento de Liderança Feminina”, em parceria com a consultoria LLH. A iniciativa já contemplou 22 mulheres em sua primeira edição, 45% delas profissionais da área de Engenharia da empresa.

A ação consiste em um programa direcionado a profissionais identificadas como de alto desempenho e mapeadas em planos de sucessão, com o objetivo de alavancar o desenvolvimento dessas líderes e engajar seus gestores, para garantir que elas atinjam seu pleno potencial.

A importância da representatividade 

A pesquisadora e estudante de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Úrsula Kopke, mergulhou no mundo da Ciência após se formar em Publicidade. Ela conta que, durante sua transição, contou com o apoio de diversas pesquisadoras que deram orientações sobre como ingressar no campo científico. Além disso, chegou a fazer campanha de financiamento coletivo para participar de cursos e congressos em sua área de pesquisa.  

“Quando eu penso em Publicidade, eu não sentia pertencimento”, conta Úrsula que se formou com bolsa integral e chegou a apresentar seu TCC de Comunicação na Universidade de Harvard. “Agora, na Biologia, especialmente nos estudos de genética, é como se tudo estivesse certo, como se tivesse nascido para isso”, desabafa.  

A pesquisadora e estudante de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Úrsula Kopke

Hoje, ela faz parte do no Grupo de Células-Tronco Aplicadas a Biofabricação (CTAB) sob coordenação da professora Leandra Baptista eestuda sobre modelos 3D de células tumorais dos cânceres de fígado, mama e osso.

“Estudar o câncer é um tributo à minha avó, que morreu de câncer. E uma tentativa de ajudar tantas outras avós, mães, tias e filhas que passam ou passarão por isso”, comenta Úrsula.

Após enfrentar desafios como a falta de apoio familiar para mudar de área, deslocamentos entre cidades para conciliar trabalhos e estudos, hoje Úrsula está no último ano de faculdade, no “estágio dos sonhos” e não pensa em parar tão cedo. Para ela, conhecer a trajetória de outras pesquisadoras a inspira e dá forças para seguir.  

“Quando sai uma notícia de pesquisadoras brasileiras que receberam prêmios, tiveram algum reconhecimento, isso me inspira. E eu me espelho nessas mulheres. Essa representatividade significa sonho. Significa que sonhar pode te levar a algum lugar. E que se alguém conseguiu chegar lá, você também pode. Por mais que você tenha dificuldade para subir, alguém vai te dar a mão. E mulheres dão a mão. Essa representatividade faz você confiar em si”, afirma a estudante de Biologia.  

Quando a Literatura aproxima a Ciência  

A divulgação científica ainda é um desafio e uma barreira para a desmistificação da Ciência. Mas e se a Literatura pudesse aproximar a Ciência da vida cotidiana, cativar mais adeptos e trazer uma abordagem simples, envolvente e próxima? As escritoras Leda Cartum e Sofia Nestrovski contribuem positivamente para essa transformação através do podcast Vinte Mil Léguas.  

O programa, desenvolvido por Fernanda Diamant, editora de Divulgação Científica da Revista Quatro Cinco Um, traz um olhar atento sobre o mundo e permite que elas “leiam a ciência como poesia”. Com a primeira temporada dedicada, principalmente, ao trabalho de Charles Darwin, na próxima série de episódios vão buscar mais diversidade entre os personagens e participantes, conta Sofia  Nestrovski.  

>> Escute aqui o Podcast Vinte Mil Léguas

“Temos a grande alegria de ter um projeto como esse e podermos nos dedicar a esse tipo de construção. Há uma responsabilidade de nossa parte. Temos isso em mãos, então precisamos reafirmar esse tipo de oportunidade para outras pessoas, para continuar reafirmando a igualdade de gênero. Nesse momento estamos construindo a segunda temporada e refletindo o tipo de objeto e pessoas que vamos retratar. Acreditamos que é importante ter diversidade em regionalidade e especialidade, por exemplo”, diz.  

Por mais que exista uma participação expressiva de mulheres na Ciência, ainda existem desafios com relação às posições de liderança. Sofia Nestrovski acredita que ainda há um imaginário de que é uma área masculinizada.  

“Existem muitas mulheres fazendo numerosos trabalhos, bons e interessantes, mas elas tendem a ser menos visíveis. Tem que haver um esforço de quem está na posição de curadoria de ir atrás dessas mulheres. O nome dos homens tende a vir à mente muito mais rápido”, afirma em entrevista exclusiva para a Revista Nós.