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11 de março de 2021

‘Não adianta só equiparar, é necessário incluir’, afirma Simone Barbieri, da Engie Brasil, sobre diversidade na indústria

Por Karen Garcia

Fazer parte da transformação é a razão de ser de Simone Barbieri, diretora de Pessoas e Cultura da Engie Brasil e membro do Conselho de Administração da companhia do setor de energia. Em entrevista exclusiva à Revista Nós, a executiva conta como um desafio profissional resultou em um problema de saúde e posteriormente acabaria se tornando seu propósito de vida. 

Atualmente, Simone faz parte de um grupo seleto de mulheres que ocupam posições na alta liderança de grandes empresas, algo como 16% dos cargos executivos. Quando filtra-se por postos de CEOs e presidentes de conselho, o número cai para 3%, segundo pesquisa da Bain & Company em parceria com o Linkedin.  

Paridade de gênero  

O número de mulheres em conselhos de administração vem crescendo a passos lentos. Levantamento do Spencer Stuart Board Index Brasil mostrou que esse índice passou de 7,2% em 2015 para 11,5% no ano passado. Na Engie, o percentual é de 22%. Das nove cadeiras, duas são ocupadas por líderes femininas. 

Simone Barbieri é membro do Conselho de Administração da Engie Brasil

Natural de São Paulo, Simone é formada em Psicologia pela USP e possui longa carreira em consultoria. Hoje ela responde pela gestão cultural e da mudança, além do alinhamento das práticas de RH nas diversas entidades que compõem a unidade no Brasil.

Quando foi convidada para ocupar o cargo de diretora de Recursos Humanos e Saúde & Segurança na Engie, em 2016, entendeu que seria uma oportunidade para influenciar positivamente a organização dentro do tema da diversidade. 

Desafios para mulheres na liderança

O desafio frente à área de pessoas de uma das maiores empresas privadas do país estava atrelado às questões de gênero. 

“A área de recursos humanos é comumente liderada por mulheres. Estava acostumada com essa atmosfera. Quando essa posição se encontra dentro de uma área masculinizada como o setor de energia, isso muda um pouco”. E acrescenta:  

“Precisei aprender a linguagem masculina e a linguagem dos engenheiros. Há outra forma de pensar. Foi preciso transformar indicadores em algo mais simples e prático. Quando você vem para esse universo, passa a ser cobrada no sentido de pragmatismo e assertividade”, explica. 

No mesmo ano em que assumiu a posição, a empresa tinha como líder global a francesa Isabelle Kocher. Na ocasião, a CEO do grupo estabeleceu o objetivo de ter 50% de mulheres em cargos de liderança. 

“Isso dá uma força muito grande para a nossa ação global. Quando a Catherine esteve no Brasil para olhar os negócios na região, bateu forte nessa tecla de diversidade. Nós viemos trabalhando o ambiente. A transformação tem que ser por completo, não adianta só equiparar quantitativamente, é necessário incluir”, afirma.  

Compromisso público

Há dois anos, a Engie assumiu o compromisso de incentivar a promoção da igualdade de gênero entre os colaboradores e aderiu aos “Princípios de Empoderamento das Mulheres” (WEPs, sigla em inglês de Women’s Empowerment Principles), uma iniciativa da ONU Mulheres. Além disso, nesta quarta-feira, a companhia passa a integrar a Coalizão Empresarial pelo fim da Violência contra Mulheres e Meninas.

A iniciativa conta com a participação de grandes empresas em uma ação colaborativa que une esforços e recursos das companhias para conscientizar e mobilizar para esta causa: o fim da violência contra mulheres e meninas, com foco especialmente na atuação no ambiente de trabalho.  

Empoderando mulheres 

Uma das ações da empresa, segundo Simone, é manter uma mulher na lista final de processos seletivos para oportunizar a ascensão de mulheres no quadro de colaboradores e quebrar os vieses inconscientes.  

“Essa é uma questão cultural. Precisamos sensibilizar e trazer consciência para quebrar aquilo que nos direciona num processo seletivo ou na hora de escolher o participante de um treinamento”.  

Para a executiva, uma ação muito importante é a observação dos processos para ajustar a rota mediante necessidades.  

“Nós damos um passo de cada vez. Além do apoio da alta liderança, estabelecemos uma forma de caminhar nessa trajetória de ir agindo e observando como cada ação impactava o quadro de funcionários, a reação dos líderes. Para ganhar aliados ao invés de aumentar a resistência”.  

Na visão de Simone, mais mulheres nas empresas de energia pode acelerar a transição energética, reduzir as emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) e contribuir para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Síndrome da Abelha Rainha’  

Quando questionada sobre representatividade, Simone lembrou de um episódio sensível da carreira. Em dado momento, durante a subordinação a uma líder mulher, devido ao ambiente de pressão e psicologicamente instável, desenvolveu um problema de saúde. O estresse, no entanto, acabou se transformando em  propósito de vida. 

“Tive uma gestora mulher que não foi uma boa líder. A sensação é que, uma vez que ela tinha chegado àquele posto, não poderia deixar outras mulheres se desenvolverem para que ela pudesse reinar. Devido ao comportamento controlador e à sedução emocional, desenvolvi uma doença auto imune”, relembra Simone.  

Fazer parte da transformação  

“Por conta de toda essa situação de estresse e tensão, minha missão pessoal hoje é proporcionar um ambiente de trabalho onde as pessoas não adoeçam. Precisamos avançar muito para transformar o ambiente corporativo para que os profissionais sejam felizes, produtivos, sem ficarem doentes”.  

A razão de ser de Simone se alinha diretamente com a postura de pioneirismo da companhia. Com 61 usinas, o que representa cerca de 6% da capacidade do país, a empresa possui quase 90% de sua matriz proveniente de fontes renováveis e com baixas emissões de GEE, como usinas hidrelétricas, eólicas, solares e biomassa. 

Hoje, após mais de 25 anos de carreira, ela conta que se sente reconhecida e não quer parar.  

“Penso que cada passo contribuiu para chegar onde estou hoje. Sinto-me motivada para continuar me movendo. Quero poder ajudar a trazer inovação na nossa empresa, mas no setor como um todo. Eu quero fazer parte da transformação”, diz.