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22 de abril de 2021

Palavras para a alma: empresas se mobilizam para incentivar a leitura na pandemia

Para o escritor argentino Ricardo Piglia, “a literatura é um manual de sobrevivência para tempos sombrios”. Escritores, editoras e livrarias estão lutando para manter acessível esse remédio para a alma, ainda que muitas lojas do ramo tenham fechado em meio à pandemia. O Itaú Unibanco, a livraria Blooks, a Companhia das Letras e a editora Cobogó estão entre as empresas que têm se empenhado em fomentar a leitura.  

Por Carla Duarte e Karen Garcia

Eventos online e biblioteca comunitária 

Desde antes da pandemia, a Blooks acredita na pluralidade e enxerga o livro não somente como produto comercial, mas como fonte de cultura e realiza eventos culturais, lançamentos de livros, sendo palco de acolhimento para as vozes contemporâneas. Alinhados a esses valores estão as atividades realizadas de forma remota para que os públicos fossem incentivados a ler.  

Em Niterói, foram realizados eventos online com seis escolas da cidade e do Rio de Janeiro. A empresa arrecadou livros para bibliotecas comunitárias e crianças atendidas por um projeto social da comunidade da Babilônia (RJ). A iniciativa mobilizou 20 editoras e outros 20 clientes da livraria, que doaram obras. Artistas e autores também participam da iniciativa, dando dicas de leituras para o público. As ações são alinhadas com o 4º ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável − ONU), uma agenda de ações que busca assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, demonstrando que, para além de um mercado com necessidades financeiras, o editorial é muitas vezes marcado pela responsabilidade social e o senso de comunidade.  

De acordo com o 13º Painel do Varejo de Livros no Brasil de 2020, o mercado editorial está se recuperando das perdas geradas pela quarentena. Dezembro de 2020 foi o mês com maior registro de vendas do ano, com 4,98 milhões de livros comercializados e faturamento de R$ 197,8 milhões. Os números são um convite a olhar com otimismo para 2021; não obstante, para as livrarias físicas, o impacto da pandemia ser preocupante.    

Rede de solidariedade

A livraria Blooks, que tem seis unidades em Niterói, Rio de Janeiro e São Paulo, fechou duas lojas dentro dos cinemas Reserva Cultural (SP) e Estação Net (RJ), enquanto a loja do Shopping Frei Caneca (SP) sobrevive com dificuldade, mesmo contando com parceria das editoras e do shopping. Elisa Ventura, empreendedora cultural e fundadora da marca, conta, “nunca ia imaginar que um ano depois do começo da pandemia estaríamos numa situação muito pior”.  

Elisa explica que, tanto o governo federal quanto os governos dos estados do RJ e SP não apresentaram ações de incentivo às livrarias e lembra que muitas encerraram as atividades por não obterem qualquer facilitador para manter a atividade. “Para poder manter as atividades, a Blooks, com todas as lojas fechadas, teve de abrir uma campanha crowdfunding.” Ainda que algumas iniciativas do setor tenham feito campanhas para ajudar as livrarias de rua, Elisa aponta o imenso desafio que é manter uma livraria, funcionários, lojas, manutenção e pagamento a fornecedores no atual contexto econômico e social.  

Apesar da ausência de ações governamentais, clientes e leitores conseguiram dar suporte para livrarias, seja participando de campanhas de arrecadação, comprando livros pelo e-commerce das livrarias e buscando financiar o microempreendedor, especialmente em momentos com descontos agressivos que empresas bilionárias conseguem oferecer. 

Acesso a todas e todos   

De acordo com dados do 4º Painel do Varejo de Livros no Brasil em 2020, entre 23 de março e 19 de abril, os e-books e vendas online de livros físicos aumentaram. O dado está em consonância com a ação da editora Companhia das Letras, que no mesmo mês lançou a campanha Leia Em Casa, na qual compartilhava dicas de livros dos seus editores e disponibilizou diversos e-books gratuitamente, facilitando o acesso e popularizando a leitura no suporte digital que cada um tinha disponível em casa.  

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Já a editora Cobogó, junto a outras marcas, subsidiou o projeto Fundo+Livros, uma rede de apoio lançada por crowdfunding que apoiou autores, editoras, livrarias independentes, tradutores, revisores, designers, gráficas − enfim, os agentes responsáveis pela criação do objeto livro − afetados pela pandemia da Covid-19.  

Uma década de incentivo à leitura 

2020 marcou também os 10 anos do programa Leia Para Uma Criança, realizado pelo Itaú Unibanco, que distribuiu mais de 57 milhões de livros físicos no período. Para comemorar o aniversário do programa, foi lançado o Live Para Uma Criança, a alternativa remota que respeita o isolamento social, com a alegria e força que a literatura infantil merece.

Em cinco sábados foram mais de 30 horas de leituras de livros infantis, bate papos com especialistas e música para as crianças. O programa também contou com a Estante Digital, um acervo de 16 livros digitais e gratuitos que foram lidos nas lives e estavam disponíveis pelo WhatsApp. Até agora, digitalmente foram distribuídos mais de 7,8 milhões de exemplares. No site Leia Para uma Criança é possível maratonar todo o conteúdo das lives, além de receber gratuitamente as publicações.  


A palavra de quem buscou refúgio na leitura 

A psicóloga Amanda Carrasco passou parte da infância e da adolescência nas bibliotecas, protegida pelas possibilidades da imaginação. “Infelizmente, por ironia, entrar em cursos de humanas me fez distanciar do meu amor por leituras”, conta. Amanda é uma das pessoas que, durante o isolamento social, lidou com a aspereza da realidade através da leitura, resgatando um hobby e uma conexão, enquanto assistiu ao agravamento do sistema de saúde junto a milhares de brasileiros. Nesse sentido, ela conta que o reencontro com a leitura foi essencial. 

 “Recordar das expectativas de cada página e tentar sentir algo além do caos vindo de ser brasileira em um desgoverno, somado com a pandemia, me fez procurar linhas de fugas, relembrei da leitura e me dei de presente uma assinatura anual da TAG, fato esse que marcou meus dias”.  

Além de voltar para a casa dos pais, trabalhar, sobreviver e seguir as medidas de segurança do isolamento social, Amanda conseguiu concluir a leitura de mais de dez livros e disse que, voltar a ler fez com que se sentisse ainda mais em casa.

“Voltar a me sentir contente na leitura, foi imprescindível! Os microafetos, voltando a fazer sentido”, afinal cultivar a vida e a esperança em tempos de pandemia no Brasil, além de difícil, é ato de sobrevivência. 

A poesia e o romance foram os gêneros que marcaram as leituras de Amanda. Dentre os que mais conversaram com ela, estão, “O livro dos abraços” (Eduardo Galeano), “O livro das Ignorãças” e “Meu quintal é maior do que o mundo” (Manoel de Barros), “Téo & o Mini Mundo – o Livro” (Caetano Cury) e o da TAG: “Sul da fronteira, oeste do sol” (Haruki Murakami). 

De acordo com dados da TAG, em entrevista para a Folha de S. Paulo, de março de 2020 a abril de 2021, a mesma TAG com que Amanda se presenteou passou de 49 mil para cerca de 70 mil assinantes hoje. Definitivamente, a busca pela conexão através dos livros foi e é um recurso de enfrentamento em um momento sombrio.